Noturno
O dia todo as
visitas se sucederam. Depois a noite cai e não há mais ninguém.
Eis-me aqui sozinho até amanhã. Com uma alegria misturada à
angústia, preparo-me para esta travessia da noite que terá suas
iluminações, seus choros, seus longos estremecimentos na paz
do corpo, as fantasmagorias dos sonhos e a doçura mortal dos
devaneios. É uma viagem imóvel - a cabeça ao leste, os pés no oeste
- onde tudo pode acontecer, o anjo da morte e aquele que dá o brilho
criador, a pesada e negra deusa Melancholia e o chamado de socorro
de um amigo ou de um vizinho. Minha solidão noturna é o outro nome
de uma imensa espera que é tanto aquela daquele que dorme quanto a
daquele que desperta.
...
Esta noite sinto em
meu corpo batimentos de asas furtivas. Digo: há pássaros em minha
cama. Pássaros ou morcegos. 'Uma voz responde: não, são as almas dos
mortos do cemitério. Há séculos elas esperam por milhares atrás da
parede.
...
Dormi bem, pois
minha infelicidade também dormiu. Sem dúvida passou ela deitada
enrolada na beira da cama. Acordei antes dela e tive alguns segundos
de felicidade indizível. Eu era o primeiro homem que abria os olhos
na primeira manhã. Depois minha infelicidade despertou por sua vez e
logo se lançou sobre mim e me mordeu no fígado.
TOURNIER
Michel. petites proses
***
Tradução:
©Silvia
Revisão : Prof.
J.R.S.F.


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