Um texto em prosa, periodicamente !

Noturno

O dia todo as visitas se sucederam. Depois a noite cai e não há mais ninguém. Eis-me aqui sozinho até amanhã. Com uma alegria misturada à angústia, preparo-me para esta travessia da noite que terá suas iluminações, seus choros,  seus longos estremecimentos na paz do corpo, as fantasmagorias dos sonhos e a doçura mortal dos devaneios. É uma viagem imóvel - a cabeça ao leste, os pés no oeste - onde tudo pode acontecer, o anjo da morte e aquele que dá o brilho criador, a pesada e negra deusa Melancholia e o chamado de socorro de um amigo ou de um vizinho. Minha solidão noturna é o outro nome de uma imensa espera que é tanto aquela daquele que dorme quanto a daquele que desperta.

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Esta noite sinto em meu corpo batimentos de asas furtivas. Digo: há pássaros em minha cama. Pássaros ou morcegos. 'Uma voz responde: não, são as almas dos mortos do cemitério. Há séculos elas esperam por milhares atrás da parede.

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Dormi bem, pois minha infelicidade também dormiu. Sem dúvida passou ela deitada enrolada na beira da cama. Acordei antes dela e tive alguns segundos de felicidade indizível. Eu era o primeiro homem que abria os olhos na primeira manhã. Depois minha infelicidade despertou por sua vez e logo se lançou sobre mim e me mordeu no fígado.

 TOURNIER Michel. petites proses  

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Tradução: ©Silvia

Revisão : Prof. J.R.S.F.

 

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