A lição das
trevas
Certas noites de inverno, entre a segunda e
a terceira hora, enquanto o sol separado de mim por toda a espessura
da terra não me leva através do império das sombras senão raios
negros, encontro meus mortos. No ar lúcido criado pela insônia,
formam uma multidão atenta e sem rosto os camaradas mortos de minha
infância, os amigos perdidos de minha juventude, os de anteontem, os
de ontem já.
Qual é portanto a lição das trevas ? Que
querem todas estas silhuetas cinzentas ? Que têm elas a me soprar,
essas bocas plenas de silêncio ? Foi-me preciso tempo para
compreender, para aceitar. Hoje, eu o sei. Elas vêm lembrar-me de
minha posse em sua comunidade. Elas vêm dizer-me que sou delas, e já
morto de certa maneira.
Conheci outrora uma mulher que vivera
cercada pelos filhos, criancinhas, por toda uma corte familiar e
afetuosa. Em seguida, a infelicidade atingira ao seu redor, com
fúria terrível, tendo ainda a suprema crueldade de poupá-la, a ela
própria, mas abatendo aos seus pés alguns jovens, tudo o que era sua
razão de ser.
Eu
temia encontrar uma ruína. Era totalmente outra coisa, o contrário
num certo sentido. Ela sorria a todos, afável, atenciosa, leve,
espirituosa, platônica. Na verdade, ela nos desempenhava um papel,
mas não estava mais aqui, para ninguém deste mundo.
Compreendi, vendo-a, que Ofélia não
se tornou louca e suicida pelo assassinato de seu pai. Ela
simplesmente afogou-se com ele nas águas pesadas, e só emergem ainda
os olhos sonhadores e os lábios cantantes.
Ser jovem é não ter perdido ninguém ainda.
Mas, em seguida, nossos mortos nos arrastam com eles e cada um é um
rochedo lançado em nossa memória, que mostra nossa linha de
incertezas. No fim, derivamos à flor da água, à flor da existência,
apenas oferecendo aos vivos senão apenas o que é preciso em olhares
e palavras, para lhes fazer crer que somos deste mundo.
TOURNIER
Michel. petites proses
Tradução:
Silvia
Revisão: prof.
J.R.S.F.
"A morte dos que amamos - pais e amigos -
contribui também a nos desligar da vida. Eu os vejo, meus queridos,
do outro lado do rio, confabulando sem mim. Eles me fazem sinais com
dolorosa ternura. Grito para eles:
"Esperem por mim ! Estou chegando, estou
chegando !"
Michel Tournier


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