Passeio

Conto de Guy de Maupassant publicado primeiramente no jornal Gil Blas (27 de maio de 1884). Inserido na coletânea Ivette.

Quando o pai Leras, guarda-livros de MM. Labuze e Cia., saiu da loja, permaneceu alguns instantes ofuscado pelo brilho do sol poente. Havia trabalhado o dia todo sob a luz amarela do lampião, ao fundo da casa interior, sobre o pátio estreito e profundo como um poço. O pequeno compartimento em que havia quarenta anos ele passava suas jornadas era tão sombrio que, mesmo no rigor do verão, quase que não se podia dispensar de iluminá-lo das onze horas às três horas.

   Ali estava sempre úmido e frio; e as emanações dessa espécie de fossa, onde se abria a janela, entravam no compartimento obscuro, enchiam-no dum odor mofado e dum mau cheiro de esgoto.    

    M. Leras, havia quarenta anos, chegava cada manhã às oito horas a essa prisão; e permanecia ali até às sete horas da noite, curvado sobre seus livros, escrevendo com uma aplicação de bom empregado.

   Ele ganhava agora três mil francos por ano, tendo começado com mil e quinhentos francos. Permanecera celibatário, não lhe permitindo seus meios ter mulher.  E não tendo jamais desfrutado de nada, não desejava grande coisa. De tempos em tempos, entretanto, cansado de sua tarefa monótona e contínua, formulava um voto platônico: "Arre, se eu tivesse cinco mil libras de renda, deixaria fluir doce a vida”.

   A vida nunca lhe fluiu doce, aliás, não tendo ele jamais possuído senão seus honorários mensais.

    Sua vida se havia passado sem acontecimentos, sem emoções e quase sem esperanças. A faculdade dos sonhos, que cada um porta em si, não se havia jamais desenvolvido na mediocridade de suas ambições.

 
  Entrara com vinte e um anos na firma MM. Labuze e Cia. E dali não saíra mais.
   Em 1856 havia perdido seu pai, depois sua mãe em 1859. E desde então, nada senão uma mudança em 1868, seu proprietário tendo querido aumentá-lo.
   Todos os dias seu despertador, às seis horas precisas, o fazia saltar da cama, por um assustador ruído de corrente que se arrasta.     

   Duas vezes, entretanto, esse mecanismo se quebrara, em 1866 e em 1874, sem que ele jamais tivesse sabido por quê. Vestia-se, fazia sua cama, varria seu quarto, tirava o pó da poltrona e sobre a cômoda. Todas essas tarefas lhe requeriam uma hora e meia.
   

   Depois saía, comprava um croissant na padaria Lahure, da qual tinha conhecido onze patrões diferentes sem que ela perdesse seu nome, e punha-se a caminho, comendo aquele pequeno pão.


Toda sua existência tinha-se cumprido portanto no estreito escritório escuro forrado pelo mesmo papel.  Entrara  ali jovem como ajudante do Senhor Brument e com o desejo de substituí-lo.
   

   Substituíra-o e não esperava mais nada.
      

   Toda esta colheita de lembranças que os outros homens fazem no decorrer de suas vidas, os acontecimentos imprevistos, os amores doces ou trágicos, as viagens aventureiras, todos os acasos de uma existência livre tinham-lhe permanecido estranhos.
    

   Os dias, as semanas, os meses, as estações, os anos se tinham parecido. Na mesma hora, cada dia, ele se levantava, partia, chegava ao escritório, almoçava, ia embora, jantava e dormia, sem que nada tivesse jamais interrompido a regular monotonia dos mesmos atos, dos mesmos feitos, e dos mesmos pensamentos.

   Antigamente ele olhava seu bigode loiro e seus cabelos enrolados no pequeno espelho redondo deixado pelo seu predecessor. Contemplava agora, cada noite, antes de partir, seu bigode branco e sua testa calva no mesmo espelho.  Quarenta anos tinham-se escorrido, longos e rápidos, vazios como um dia de tristeza, e parecidos como as horas de uma noite má !  Quarenta anos dos quais nada lhe restava, nem mesmo uma lembrança, nem mesmo uma infelicidade, desde a morte de seus pais. Nada.



   Naquele dia o senhor Leras permaneceu ofuscado sobre a porta da rua, pelo brilho do pôr-do-sol; e ao invés de voltar a sua casa, teve a idéia de dar um pequeno passeio antes de jantar, o que lhe acontecia quatro ou cinco vezes por ano.

     Alcançou as avenidas onde corria uma multidão de gente sob as árvores enverdecidas. Era uma noite de primavera, uma dessas noites quentes e suaves que perturbam os corações com uma embriaguez de vida. 

    O senhor Leras ia com seu passo saltitante de velho; ia com alegria nos olhos, feliz pela alegria universal e pela tepidez do ar.

    Alcançou os Campos Elíseos e continuou a andar, reanimado pelos eflúvios de juventude que passavam nas brisas.

    O céu inteiro queimava; e o Arco do Triunfo cortava sua massa negra sobre o fundo brilhante do horizonte como um gigante em pé num incêndio. Quando chegou perto do monstruoso monumento, o velho guarda-livros sentiu que tinha fome, e entrou em casa dum comerciante de vinho para jantar.

    Serviram-lhe diante da loja, sobre a calçada, um pé de carneiro, salada e aspargos; e o senhor Leras teve o melhor jantar que ele teria tido há muito tempo. Molhou seu queijo de Brie com meia garrafa de bordeaux fino; depois bebeu uma xícara de café, o que lhe acontecia raramente, e em seguida um pequeno copo de fino champanha. 

    Quando pagou, sentiu-se todo prazenteiro, todo alegrinho, até um pouco perturbado.  E disse a si mesmo: "Eis aí uma boa noitada. Vou continuar meu passeio até a entrada do Bosque de Bolonha. Isso me fará bem”.
     Tornou a partir. Uma antiga ária, que uma de suas vizinhas cantava outrora, lhe voltava obstinadamente à cabeça:

   Quando o bosque reverdece,

   Meu amor me diz:

   Vem respirar minha bela,

   Sob o caramanchão.


   Ele a cantarolava sem fim, recomeçava sempre. A noite tinha caído sobre Paris, uma noite sem vento, uma noite de estufa. O senhor Leras seguia a avenida do Bosque-de-Bolonha e olhava passar os fiacres. Eles chegavam com seus olhos brilhantes, um atrás do outro, deixando ver um segundo um casal enlaçado, a mulher em vestido claro e o homem vestido de negro. 
   

   Era uma longa procissão de apaixonados, passeando sob o céu estrelado e ardente. Vinha um desses sempre, sempre.  Passavam, passavam, alongados nos carros, mudos, apertados um contra o outro, perdidos na alucinação, na emoção do desejo, no estremecimento do abraço próximo. A sombra quente parecia plena de beijos que volteavam, flutuavam. Uma sensação de ternura enlanguescia o ar, tornando-o mais abafado. Todas essas pessoas enlaçadas, todas essas pessoas inebriadas pela mesma expectativa, pelo mesmo pensamento, faziam correr uma febre ao redor delas. Todos aqueles carros, cheios de carícias, lençavam com sua passagem uma como emanação sutil e perturbadora. 
   

   O senhor Leras, um pouco cansado no final da caminhada, sentou-se em um banco para olhar desfilar aqueles fiacres carregados de amor. E, logo uma mulher chegou perto dele e lhe tomou lugar ao lado.

   “Bom dia, meu homenzinho”, disse ela. 

   Ele não respondeu absolutamente. Ela retomou:

   “Deixa-te amar, meu querido, verás que sou bem gentil.” 
   Ele pronunciou:
   “A senhora se engana, madame.” 

   Ela passou um braço sob o seu:

   “Vamos, não te faças de tolo, escuta....”
   Ele se havia levantado e se afastou, o coração apertado.

    Cem passos mais longe, outra mulher o abordava:

   “Quer sentar-se um momento perto de mim, meu belo rapaz ?”

   Ele lhe disse:

   “Por que a senhora exerce essa profissão?”
   Ela plantou-se diante dele, e com a voz mudada, rouca, má: 
   “Caramba, não é por meu prazer!”    

   Ele insistiu com uma voz doce:    

   “Então, o que a leva ?”    

   Ela grunhiu:
  “A gente precisa viver, é esperteza.”
   E ela se foi, cantarolando. .
   O senhor Leras permanecia assustado. Outras mulheres passavam perto dele, chamavam-no, convidavam-no. 
    

   Parecia-lhe que alguma coisa de negro se lhe estendia sobre a cabeça, alguma coisa de pungente. 

   E ele se assentou de novo sobre um banco. Os carros corriam sempre.  
   “Eu teria feito melhor em não vir aqui, pensou, eis-me agora todo esquisito, todo desarranjado.” 

   Começou a pensar em todo aquele amor, venal ou apaixonado, em todos aqueles beijos, pagos ou livres, que se lhe desfilavam adiante.  
   O amor ! ele quase não o conhecia. Não tivera em sua vida senão duas ou três mulheres, por acaso, por surpresa, não lhe permitindo seus meios nenhum extra. E imaginava esta vida que tinha levado, tão diferente da vida de todos, esta vida tão sombria,  tão morna, tão chata, tão vazia. 

   Há seres que verdadeiramente não têm sorte. E de repente, como se um véu espesso se tivesse rasgado, ele viu a miséria, a infinita, a monótona miséria de sua existência: a miséria passada, a miséria presente, a miséria futura: os últimos dias parecidos com os primeiros, sem nada diante de si, nada atrás de si, nada ao redor de si, nada no coração, nada em parte alguma.
   O desfile de carros seguia sempre. Sempre ele via aparecer e desaparecer, na rápida passagem do fiacre descoberto, os dois seres silenciosos e enlaçados. Parecia-lhe que a humanidade inteira desfilava diante dele, inebriada de alegria, de prazer, de felicidade. E a olhá-la ele estava só, só, completamente só. Ele estaria ainda só amanhã, só sempre, só como ninguém é só. 
   Levantou-se, deu alguns passos, e bruscamente fatigado, como se acabasse de cumprir uma longa viagem a pé, sentou-se de novo sobre o banco seguinte. 

   Que é que ele aguardava ?  Que é que ele esperava ?  Nada. Pensava que deve ser bom, quando se é velho, encontrar, voltando à residência, pequenas crianças que tagarelam. Envelhecer é doce quando se é rodeado por aqueles seres que lhe devem a vida, que o amam, que o acariciam, que lhe dizem estas palavras encantadoras e tolas que reaquecem o coração e consolam de tudo.

   E, pensando em seu quarto vazio, em seu pequeno quarto limpo e triste, onde jamais ninguém entrava senão ele, uma sensação de angústia lhe estreitou a alma.  Pareceu-lhe, esse quarto, mais lamentável ainda que seu pequeno escritório. 
   

   Ninguém ia ali, ninguém ali falava jamais. Era morto, mudo, sem eco de voz humana. Dir-se-ia que as paredes guardam algo das pessoas que vivem dentro, algo do comportamento, da aparência, das palavras delas.  As casas habitadas por famílias felizes são mais alegres que as moradias dos miseráveis.  Seu quarto estava vazio de lembranças, como sua vida. E o pensamento de voltar totalmente só a esse cômodo, de deitar-se em sua cama, de refazer todos os seus movimentos e todas as suas tarefas de cada noite o apavorou. E, como para afastar-se mais daquela habitação sinistra e do momento em que lhe seria necessário ali retornar, ele se levantou e, encontrando de repente a primeira alameda do bosque, entrou na mata para sentar-se sobre a relva...

   Escutava ao redor de si, acima de si, por todo lado, um rumor confuso, imenso, contínuo, feito de ruídos inumeráveis e diferentes, um rumor surdo, próximo, longínquo, uma vaga e enorme palpitação de vida: o sopro de Paris, respirando como um ser colossal. 

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   O sol já alto despejava uma ondulação de luz sobre o Bosque de Bolonha.    Alguns carros começavam a circular; e os cavaleiros chegavam alegremente. 

   Um casal caminhava depressa numa alameda deserta. De repente, a moça, levantando os olhos, percebeu nos ramos alguma coisa escura; levantou a mão, espantada, inquieta:     

   “Olhe... que que é ?”
  Depois, lançando um grito, ela se deixou tombar nos braços de seu companheiro, que teve de depositá-la à terra. 
  Os guardas, chamados pouco depois, desprenderam um velho homem enforcado por meio de seus suspensórios.    

   Constatou-se que o falecimento remontava à noite anterior. Os papéis encontrados sobre ele revelaram que se tratava de um guarda-livros de MM. Labuze e Cia., e que se chamava Leras. 

  Atribuiu-se a morte a um suicídio cujas causas não se puderam suspeitar.    

   Talvez um acesso súbito de loucura ?

 

Tradução : © Silvia

Revisão: Prof. J.R.S.F.

 

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