A Confissão. Conto de Guy de Maupassant publicado primeiramente no jornal Le Figaro (10 de novembro de 1884). Inserido na coletânea Toine.

A CONFISSÃO  

Toda Véziers-le-Réthel assistira aos funerais e enterro do Sr. M. Badon-Leremincé, e as últimas palavras do discurso do delegado da prefeitura permaneciam em todas as memórias. “É um homem honesto de menos!”

Honesto homem ele fora em todos os atos apreciáveis de sua vida, em suas palavras, em seu exemplo, em sua atitude, em seus comportamentos, em suas empreitadas, no corte de sua barba e  forma de seus chapéus. Nunca disse uma palavra que não contivesse um exemplo, jamais dera uma esmola que não fosse seguida de um conselho, jamais estendeu a mão sem apresentar uma espécie de bendição.

Deixava dois herdeiros: um filho e uma filha; seu filho era conselheiro geral, e sua filha, tendo-se casado com um notário, M. Poirel de la Voulte, estava no auge  em Véziers.

Estavam inconsoláveis pela morte do pai, pois o amavam sinceramente.

Logo terminada a cerimônia, voltaram à casa do morto, e fechando-se os três, o filho, a filha e o genro, abriram o testamento que deveria ser aberto somente por eles, e somente depois que o caixão tivesse sido colocado sob a terra. Uma anotação sobre o envelope indicava essa vontade.

Foi o senhor Poirel de la Voulte que rasgou o papel, em sua qualidade de notário habituado a essas operações, e, tendo ajustado sobre os olhos os óculos, ele leu, com sua voz terna, feita para detalhar os contratos:

- Meus filhos, meus caros filhos, eu não poderia dormir tranqüilo o sono eterno se não lhes fizesse, do outro lado da tumba, uma confissão, a confissão de um crime cujo remorso me dilacerou a vida. Sim, cometi um crime, um crime assustador, abominável.

Eu tinha então vinte e seis anos e iniciava na carreira de advogado, em Paris, vivendo a vida dos jovens da província,  fracassados, sem conhecimentos, sem amigos, sem pais, naquela cidade.

Arranjei amante. Como as pessoas se indignam com esta única palavra "amante", e entretanto há seres que não podem viver sós. Sou como estes. A solidão me cobre com uma angústia horrível, a solidão na casa, perto do fogo, à noite. Parece-me então que estou só na terra, horrivelmente só, mas cercado de perigos vagos, de coisas desconhecidas e terríveis; e a barreira que me separa de meu vizinho, de meu vizinho que não conheço, me distancia dele tanto quanto as estrelas vistas pela minha janela. Uma espécie de febre me invade, febre de impaciência e de temor; e o silêncio das paredes me assusta.  É tão profundo e tão triste este silêncio do quarto onde se vive só ! Não é apenas um silêncio ao redor do corpo, mas um silêncio ao redor da alma; e quando um móvel estala, agitamo-nos no coração, pois nenhum ruído é esperado nessa morna habitação.

Quantas vezes, nervoso, apavorado por essa imobilidade muda, comecei a falar, a pronunciar palavras, sem seqüência, sem razão, para fazer ruído. Minha voz então me parecia tão estranha que eu tinha medo também. Há algo mais assustador que falar sozinho numa casa vazia ? A voz parece a de um outro, uma voz desconhecida, falando sem causa a ninguém, no ar depressivo, sem nenhum ouvido para escutar, pois sabem-se, antes que escapem na solidão do apartamento, as palavras que vão sair da boca. E quando ressoam lugubremente no silêncio, elas só têm aparência de um eco, o eco único de palavras pronunciadas pelo pensamento.

Arranjei amante, uma jovem como todas as jovens que vivem em Paris com profissão insuficiente para nutri-las. Era doce, boa,simples; seus pais moravam em Poissy. Ela ia passar alguns dias em casa deles algumas vezes.

Durante um ano vivi muito tranqüilo com ela, muito decidido a deixá-la quando viesse a encontrar uma jovem pessoa que  me agradasse bastante para esposá-la.  Deixaria a outra uma pequena renda, já que é admitido em nossa sociedade que o amor de uma mulher deve ser pago, pelo dinheiro quando ela é pobre, por presentes quando ela é rica.

Mas eis aí que um dia ela me anunciou que estava grávida. Fiquei aterrado e vi num segundo  todo o desastre de minha existência. Apareceu-me a cadeia que eu arrastaria até minha morte, por todo lado, em minha família futura, em minha velhice, sempre: cadeia da mulher ligada à minha vida pela criança, cadeia da criança que será necessário educar, fiscalizar, proteger, totalmente escondendo-me dela e escondendo-a do mundo. Tive o espírito perturbado por essa notícia; e um desejo confuso que eu não expunha de maneira alguma, mas que sentia no coração, pronto a mostrar-se, como essas pessoas escondidas atrás das portas para esperar que lhes diga para aparecer, um desejo criminal vagou no fundo de meu pensamento ! - Se um acidente pudesse acontecer ? Há tantos desses pequenos seres que morrem  antes de nascer !

Oh ! Não desejava a morte de minha amante. A pobre moça, eu  gostava dela ! Mas, eu desejava, talvez, a morte do outro, antes de tê-lo visto ?

Ele nasceu.Tive uma vida de casal em minha pequena moradia de moço solteiro, uma falsa vida de casal  com criança, coisa horrível. Ele se parecia a todas as crianças. Eu não o amava muito. Os pais, vejam vocês, só amam mais tarde. Não têm a ternura instintiva e ardente das mães; é preciso que a afeição se lhes desperte pouco a pouco, que o espírito se lhes apegue pelos laços que se ligam cada dia entre os seres que vivem juntos.

Mais um ano se foi;  eu evitava agora minha casa demasiado pequena, onde se arrastavam roupas, colchas, meias grandes como luvas, mil coisas de toda espécie deixadas sobre um móvel, sobre o braço duma poltrona, por todo o lado. Eu fugia principalmente para não escutá-lo gritar; pois ele gritava a propósito de tudo, quando o trocavam, quando o lavavam, quando o deitavam, quando o levantavam, sem parar.

Eu tinha feito alguns conhecimentos e encontrei num salão aquela que devia ser a mãe de vocês. Fiquei apaixonado, e o desejo de esposá-la despertou-se em mim. Eu a cortejei; pedi-a em casamento; deram-ma.

Encontrei-me pego nesta armadilha: casar, tendo um filho com essa moça que eu adorava,  ou até dizer a verdade e renunciar a ela, à felicidade, ao futuro, a tudo, pois seus pais, pessoas rígidas e escrupulosas, não ma teriam absolutamente dado se o soubessem.

Passei um mês horrível de angústia, de torturas morais; um mês onde mil pensamentos assustardores me perseguiram; e senti crescer em mim um ódio contra meu filho, contra este pequeno pedaço de carne vivente e gritante que barrava minha rota, cortava minha vida, condenava-me a uma existência sem expectativa, sem todas essas esperanças vagas que tornam encantadora a juventude.

Mais, eis aí que a mãe de minha companheira caiu doente, e fiquei só com a criança.

Estávamos em dezembro. Fazia um frio terrível. Que noite ! Minha amante acabava de partir.  Eu tinha jantado só  em minha estreita sala e entrava delicadamente no quarto onde o pequeno dormia.

Sentei-me em uma poltrona diante do fogo. O vento soprava, fazia romper os vidros, um vento seco de frio, e eu via, através da janela, brilhar as estrelas com aquela luz aguda que elas têm pelas noites glaciais.

Então a obsessão que me perseguia há um mês penetrou de novo em minha cabeça.. Desde que eu permanecia imóvel, ela descia sobre mim, entrava em mim e me corroía. Corroía-me como corroem as idéias fixas, como os cânceres devem corroer as carnes. Ela estava aqui, em minha cabeça, em meu coração, em meu corpo inteiro, parecia-me; e me devorava, assim como um animal teria feito. Eu queria expulsá-la, abandoná-la, abrir meu pensamento a outras coisas, a esperanças novas, como se abre uma janela ao vento fresco da manhã para expulsar o ar viciado da noite; mas não podia, mesmo um segundo, fazê-la sair de meu cérebro. Não sei como exprimir essa tortura. Ela me destruía a alma; e eu sentia com uma dor assustadora, uma verdadeira dor física e moral, cada uma de suas dentadas.

Minha existência tinha-se acabado ! Como eu sairia daquela situação ? Como recuar e como confessar ?

E eu amava aquela que se lhes devia tornar a mãe com uma paixão louca, que o incontrolável obstáculo exasperava mais.

Uma cólera terrível crescia, que me apertava a garganta, uma cólera que beirava à loucura, à loucura... à loucura ! Certamente, eu estava louco naquela noite !

A criança dormia. Eu me levantei e a olhei dormir. Era ele, aquele germe, aquela larva, aquele nada que me condenava a uma infelicidade sem apelo.

Ele dormia, a boca aberta, mergulhado sob as cobertas, num berço, perto da minha cama, onde eu não poderia dormir !

Como cumpri o que  fiz ? Eu o sei ? Qual força me arrastou, que poder malfeitor me possuiu ? Oh ! a tentação do crime me veio sem que eu a sentisse anunciar-se. Lembro-me apenas que o coração batia assustadoramente. Batia tão forte que eu o escutava como se escutam marteladas atrás das muralhas. Só me lembro disto ! Meu coração batia ! Em minha cabeça era uma estranha confusão, um tumulto, um desvio de toda razão, de todo sangue frio.  Eu estava numa dessas horas de enlouquecimento e alucinação onde o homem não tem mais consciência de seus atos nem a direção de sua vontade.

Levantei delicadamente as cobertas que cobriam o corpo de meu filho; joguei-as sobre os pés do berço, e o vi, totalmente nu. Ele não acordou. Então fui até a janela, delicadamente, bem delicadamente, e a abri.

Um sopro de ar gelado entrou assim como um assassino, tão frio que recuei diante dele; e as duas velas palpitaram.  E fiquei em pé perto da janela, não ousando voltar para não ver o que se passava atrás de mim, e sentindo sem parar escorregar sobre a fronte, as bochechas, as mãos o ar mortal que entrava ainda. Isso durou muito tempo.

Eu não pensava. Não refletia em nada. Imediatamente uma pequena tosse fez-me sentir um assustador arrepio dos pés à cabeça, um arrepio que tenho ainda neste momento, na raiz dos cabelos.  E com um movimento enlouquecido fechei bruscamente os dois batentes da janela, depois tendo voltado, corri ao berço.

Ele ainda dormia, a boca aberta, totalmente nu. Toquei-lhe as pernas: estavam geladas, e eu as cobri.

Meu coração de repente se enterneceu, se afligiu, se encheu de piedade, de ternura, de amor por este pobre ser inocente que eu quisera matar. Beijei-o longamente sobre os cabelos finos; depois voltei a sentar-me diante do fogo

Eu imaginava com espanto, com horror sobre o que havia feito, perguntando-me donde vêm estas tempestades da alma em que o homem perde toda noção das coisas, toda autoridade sobre ele próprio, e age numa espécie de embriaguez enlouquecida, sem saber o que faz, sem saber aonde vai, como um barco num furacão.

A criança tossiu ainda uma vez, e senti-me dilacerado até o coração. Se ele morresse ! meu Deus ! meu Deus ! o que seria de mim ?

Levantei-me para olhá-lo; e, uma vela à mão, pendurei-me sobre ele. Vendo-o respirar com tranqüilidade, tranqüilizei-me... quando tossiu pela terceira vez, e senti uma tal sacudidela, fiz um tal movimento para trás como quando se é perturbado pela vista de uma coisa horrível, que deixei cair minha vela.

Virando-me depois de tê-la pego, percebi que eu tinha as têmporas molhadas de suor, desse suor quente e gelado ao mesmo tempo que produzem as angústias da alma, como se algo de assustador, sofrimento moral, dessa tortura sem nome, que é bem, de fato, ardente como o fogo e frio, como o gelo, transpirava através dos ossos e da pele do crânio.

E fiquei até o raiar do dia pendurado sobre meu filho, acalmando-me quando ele permanecia muito tempo tranqüilo, e atravessado por dores abomináveis quando uma tosse fraca saía de sua boca.

Ele despertou com os olhos vermelhos, a garganta obstruída, a aparência cansada.

Quando minha faxineira entrou, eu a enviei bem depressa buscar um médico. Ele veio em uma hora e pronunciou, depois de ter examinado a criança:

Ele não teve frio ?

Comecei a tremer como tremem as pessoas muito velhas, e balbuciei:

- Mas não, eu não creio.

Depois, perguntei:

- Que é ? É grave ?

Ele respondeu:

- Não sei nada ainda. Voltarei esta noite.

Ele voltou à noite. Meu filho tinha passado quase todo o dia numa apatia invencível, tossindo de vez em quando.

Uma congestão de peito declarou-se à noite.

E aquilo durou dez dias. Não posso exprimir o que sofri durante estas intermináveis horas que separam a manhã da noite e a noite da manhã.

Ele morreu ........................................................................................................

E depois... desde aquele momento, não passei uma hora, não, nem uma hora sem que a lembrança atroz, cruel, essa lembrança que corrói, que parece torcer o espírito, dilacerando-o, remoesse em mim como um animal que morde preso no fundo de minha alma.

Oh ! se eu pudesse ficar louco !...

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M. Poirel de la Voulte retirou seus óculos com um movimento que lhe era familiar quando ele acabara a leitura de um contrato; e os três herdeiros do morto se olharam, sem dizer uma palavra, pálidos, imóveis.

No final de um minuto, o notário retomou:

- É necessário destruir isto.

Os outros dois baixaram a cabeça em sinal de consentimento. Ele acendeu uma vela, separou cuidadosamente as páginas que continham a perigosa confissão das páginas que continham as disposições de dinheiro, depois as colocou sobre a chama e as lançou na lareira.

E eles olharam consumirem-se as folhas brancas. Elas formaram rapidamente  mais que uma espécie de pequenos montes negros. E como se viam ainda algumas letras que se desenhavam em branco, a moça com a ponta do pé amassou por pequenos golpes a leve crosta de papel incendiado, misturando-o às cinzas antigas.

Depois permaneceram ainda os três algum tempo a olhar aquilo, como se temessem que o segredo queimado saísse em vôo pela lareira.

Tradução : © Silvia

Revisão: Prof. J.R.S.F.

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